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a fuga de meu primeiro país fora forçada e esmagadoramente vergonhosa. saí na urgência de um adeus malquisto, obrigado a cair nas caravelas e partir sem rumo em direção ao alto mar, sem bússola e sem tesouro. lembro-me da cena como se ainda a vivesse todas as vezes em que fecho os meus olhos: as águas salgadas coloridas de vermelho; a fumaça enegrecida e densa que cobriu de repente todo o horizonte; (os teus braços erguidos na iminência de um adeus?); a solidão que de repente me golpeou surda, como se eu precisasse olhar e fotografar cada instante-já daquela última cena antes que fosse tarde demais. ainda tentando me acostumar à nova translação da vida arrebatada de mim, apercebi-me só — afogado no maior oceano em que já havia navegado — distante demais das tuas terras para te reencontrar e distante demais de qualquer outra terra que me fosse possível existir-sem-te-querer.
e então as impurezas gravadas na cascadura da derme caíram em manchas pesadas e quebradiças pelo corpo de ontem; as rachaduras da pele derretia-se em gotas maculadas de desenhos abstratos que não pertenciam mais ao meu corpo outrora vivo em milagroso ocaso dos caminhos: era a morte lenta em paralisia cerimoniosa dos ácaros que viveram na madeira semi-apodrecida das memórias encravadas na epiderme; mesmo depois dos dois mil séculos do teu primeiro nascimento de carne humana & crosta intensamente sagrada. os ecos da aleluia cantada por todos os anjos e por todos os santos ainda eram ouvidas — ao longe e desvanecidas pelos ventos marítimos — em meio aos ecos afogados dos gritos a cobrirem o país que um dia fora o nosso; e que caíra na desgraça infernal do fogo denso de ar-e-súplica.
a morte do que Era para dar lugar ao que Sou foi de todas a tarefa mais árdua pelo qual meu espírito já havia passado; como se o devir das desgraças nunca precedidas por nenhuma nuvem mais escura ou chuva mais intensa pudesse me fazer descansar dos instantes que ainda nem haviam acontecido. o antes inscrustrado ocre em minha pele — que tu inscrustara com as tuas próprias mãos e marcastes com o teu próprio fogo — precisava ser removido de mim. como tarefa necessária — antes irrevogável sentença nunca sentenciada por ti mas outorgada por mim e seguida religiosamente desde então — me submeti à loucura-mesma-e-imperfeita da salvação. o último estágio de tua morte havia acontecido: as ranhuras mais escuras e as feridas mais abertas cicatrizavam em fotossíntese humana e quase epifânica demais. na posição de prece eu deixava meu corpo ser mergulhado pelas luzes mansamente douradas — não aquelas que vivi sentindo a pele queimar por ti nos intermitentes verões escaldantes em que subexistimos em conjunto — mas nesses instantes-já do agora que Acontece no presente mais presenciado por mim e somente por mim-mesmo. a pele queimava mas por necessidade mais primeira de minha nova carne nunca antes vivida nem testemunhada por ninguém — inédita até mesmo aos mais acostumados olhares. a água pura ajudava na fecundação das terras banhadas pelo calor e pela seiva nova que crescia forte na pele abaixo; e então eu soube — em exclamação mesma que precede os fatos mais messiânicos da história — que estava pronto. a última camada da pele antiga terminaria de se desprender em breve e então eu seria o Novo Testamento dos novos instantes que aconteceriam pelos novos caminhos virgens de qualquer presença. com o resto da madeira que sobrara dos teus destroços eu construiria o meu mundo recém descoberto, e então uma nova Era cresceria orgânica do próprio solo que — Novo e Fecundo de Frutos — amadureceria para ser sempre-morada-de-mim.
as ondas rapidamente trouxeram-me para mais perto da baía, e então pude ver em novos detalhes a pequena e verde praia a revelar-se prematura de contatos diante de mim. a faixa de areia espraiava-se como uma linha fina e alongada, quase como se sorrisse para o velho mundo. as montanhas de abundantes florestas ressoavam aos sons minúsculos e harmoniosos das aves silvestres que — como pressentindo a presença nova e densamente humana — dançavam no céu tingido de rosa em festividade de batismo sensorial. e então sabia que desejava conquistar estas novas terras: não possuí-las como se fossem de minha propriedade, mas fazê-las morada nova como habitante também selvagem e prematuro que era. se fosse cauteloso e caudaloso como este mar de calmaria aprazível, talvez minha presença fosse sendo percebida aos poucos e solenemente, e então — sem que nenhuma violência fosse cometida — eu pudesse me tonar parte também do Novo.
em resignado retorno ao desconhecido que antes só a ti pertencia, descasquei as últimas células que me prendiam à vida antiga e, sem esperar a âncora enterrar-se no solo profundo do oceano petrificado, mergulhei na água salgada resplandecente em meu corpo nu branco-pérola novo & nunca infectado. nadei sobredeterminado a recomeçar os dias de luz sem ti a me reger soberano no céu queimado de sol, para que enfim pudesse renascer dos turbulentos fins cujos desesperos não mais pertenciam a mim e nem à minha epiderme-de-devir-infinito.
me regeria a mim mesmo — do alto e do modo mais solene possível — ansiando pela reconstrução possível que sabia existir na terra firme.

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