as caravelas












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chegara a suspeitar de que nunca te esqueceria, mas as caravelas que antes navegavam perdidas por sobre os oceanos de tempestade agora escorregavam pelas ondas em direção ao novo mundo. as terras secas e endurecidas dos picos montanhosos caiam dos precipícios banhados de azul em queda livre, quebrando-se em estilhaços rochosos por toda a extensão da praia próxima à baía selvagem e inabitada. de longe, à sombra das grandes e úmidas velas a moverem velozmente o navio por sobre as águas, a terra parecia-me profusamente perfumada e fértil de novos nascimentos. a luz oblíqua do sol fulgurante refletia-se na areia da baía selvagem em caleidoscópios feixes de cor e, em uma série de cânticos silenciosos, inauguravam despretensiosamente os acontecimentos novos do Verbo: eu poderia conquistar esta ilha-de-niguém e fazer dali minha nova morada; terra única, primeira e verdadeiramente Sagrada, prometida pela profecia da Grande Queda e sentenciada na eminência da partida nunca desejada por mim.

a fuga de meu primeiro país fora forçada e esmagadoramente vergonhosa. saí na urgência de um adeus malquisto, obrigado a cair nas caravelas e partir sem rumo em direção ao alto mar, sem bússola e sem tesouro. lembro-me da cena como se ainda a vivesse todas as vezes em que fecho os meus olhos: as águas salgadas coloridas de vermelho; a fumaça enegrecida e densa que cobriu de repente todo o horizonte; (os teus braços erguidos na iminência de um adeus?); a solidão que de repente me golpeou surda, como se eu precisasse olhar e fotografar cada instante-já daquela última cena antes que fosse tarde demais. ainda tentando me acostumar à nova translação da vida arrebatada de mim, apercebi-me só — afogado no maior oceano em que já havia navegado — distante demais das tuas terras para te reencontrar e distante demais de qualquer outra terra que me fosse possível existir-sem-te-querer.
e então as impurezas gravadas na cascadura da derme caíram em manchas pesadas e quebradiças pelo corpo de ontem; as rachaduras da pele derretia-se em gotas maculadas de desenhos abstratos que não pertenciam mais ao meu corpo outrora vivo em milagroso ocaso dos caminhos: era a morte lenta em paralisia cerimoniosa dos ácaros que viveram na madeira semi-apodrecida das memórias encravadas na epiderme; mesmo depois dos dois mil séculos do teu primeiro nascimento de carne humana & crosta intensamente sagrada. os ecos da aleluia cantada por todos os anjos e por todos os santos ainda eram ouvidas — ao longe e desvanecidas pelos ventos marítimos — em meio aos ecos afogados dos gritos a cobrirem o país que um dia fora o nosso; e que caíra na desgraça infernal do fogo denso de ar-e-súplica.
a morte do que Era para dar lugar ao que Sou foi de todas a tarefa mais árdua pelo qual meu espírito já havia passado; como se o devir das desgraças nunca precedidas por nenhuma nuvem mais escura ou chuva mais intensa pudesse me fazer descansar dos instantes que ainda nem haviam acontecido. o antes inscrustrado ocre em minha pele — que tu inscrustara com as tuas próprias mãos e marcastes com o teu próprio fogo — precisava ser removido de mim. como tarefa necessária — antes irrevogável sentença nunca sentenciada por ti mas outorgada por mim e seguida religiosamente desde então — me submeti à loucura-mesma-e-imperfeita da salvação. o último estágio de tua morte havia acontecido: as ranhuras mais escuras e as feridas mais abertas cicatrizavam em fotossíntese humana e quase epifânica demais. na posição de prece eu deixava meu corpo ser mergulhado pelas luzes mansamente douradas — não aquelas que vivi sentindo a pele queimar por ti nos intermitentes verões escaldantes em que subexistimos em conjunto — mas nesses instantes-já do agora que Acontece no presente mais presenciado por mim e somente por mim-mesmo. a pele queimava mas por necessidade mais primeira de minha nova carne nunca antes vivida nem testemunhada por ninguém — inédita até mesmo aos mais acostumados olhares. a água pura ajudava na fecundação das terras banhadas pelo calor e pela seiva nova que crescia forte na pele abaixo; e então eu soube — em exclamação mesma que precede os fatos mais messiânicos da história — que estava pronto. a última camada da pele antiga terminaria de se desprender em breve e então eu seria o Novo Testamento dos novos instantes que aconteceriam pelos novos caminhos virgens de qualquer presença. com o resto da madeira que sobrara dos teus destroços eu construiria o meu mundo recém descoberto, e então uma nova Era cresceria orgânica do próprio solo que — Novo e Fecundo de Frutos — amadureceria para ser sempre-morada-de-mim.

as ondas rapidamente trouxeram-me para mais perto da baía, e então pude ver em novos detalhes a pequena e verde praia a revelar-se prematura de contatos diante de mim. a faixa de areia espraiava-se como uma linha fina e alongada, quase como se sorrisse para o velho mundo. as montanhas de abundantes florestas ressoavam aos sons minúsculos e harmoniosos das aves silvestres que — como pressentindo a presença nova e densamente humana — dançavam no céu tingido de rosa em festividade de batismo sensorial. e então sabia que desejava conquistar estas novas terras: não possuí-las como se fossem de minha propriedade, mas fazê-las morada nova como habitante também selvagem e prematuro que era. se fosse cauteloso e caudaloso como este mar de calmaria aprazível, talvez minha presença fosse sendo percebida aos poucos e solenemente, e então — sem que nenhuma violência fosse cometida — eu pudesse me tonar parte também do Novo.
em resignado retorno ao desconhecido que antes só a ti pertencia, descasquei as últimas células que me prendiam à vida antiga e, sem esperar a âncora enterrar-se no solo profundo do oceano petrificado, mergulhei na água salgada resplandecente em meu corpo nu branco-pérola novo & nunca infectado. nadei sobredeterminado a recomeçar os dias de luz sem ti a me reger soberano no céu queimado de sol, para que enfim pudesse renascer dos turbulentos fins cujos desesperos não mais pertenciam a mim e nem à minha epiderme-de-devir-infinito. 
me regeria a mim mesmo — do alto e do modo mais solene possível — ansiando pela reconstrução possível que sabia existir na terra firme.

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