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fora imensamente difícil me reerguer do chão quando despencara das tuas mãos firmes a me deixaram no núcleo da agonizante noite sem tréguas. silenciei a madrugada inteira - com a respiração presa em meus pulmões e as feridas abertas na textura da pele - rogando para que o deus inexistente soprasse os teus eternos-retornos em minha direção. entretanto:
nunca chegastes;
eu nunca me recuperara;
o dia amanhecera mesmo contra a minha vontade;
me reergui da escuridão que engolia a floresta tropical e continuei a caminhada pós-apocalíptica do abandono. caminhei cansado até o limite do passado, e então encontrei lá ao longe da paisagem acizentada uma cabana perdida e insignificante. a construção desequilibrada pelo seu próprio peso encontrava-se em um grande campo aberto castigado pelo vento, que balançava as árvores violentamente e bagunçava os meus cabelos já secos de suor. corri em desespero até lá, procurando a proteção que tantos outros antes de ti haviam renegado a mim, impedindo a mim mesmo de permanecer instável no interior do furacão selvagem ao qual acabaria exposto mais cedo ou mais tarde.
o vento do furacão iminente se fechou com a porta às minhas costas e então suspirei aliviado.
o interior da casa era indelicado e árido, como se fosse um deserto púrpura no seio das florestas úmidas que a rodeavam. não havia praticamente móvel algum, e os que restavam - vazios e deslocados pelas intempéries seculares - pendiam podres e descascados nos cantos angulosos da estreita cabana. me deixei sentar no chão de madeira acobreada, aguardando respeitosamente as estruturas do universo fustigarem com força a face terrestre em que me encontrava exilado.
é curioso como mesmo seguro no interior destas quatro paredes, o medo corria livre em mim, mantendo-me preso no estado de alerta do qual nunca deveria ter saído - nem mesmo quando achara que era confortável desarmá-lo por ti. o meu pânico alimenta as vicissitudes do tempo compartilhado entre nós, e se não sou capaz de me desfazer sobre os novos e translúcidos horizontes que nascem no oeste, é porque sou o produto & consequência dos castigos impostos ao corpo semi-morto que carrego. entendas que me fecho sobre minhas próprias paredes e fortificações irracionalmente, coberto pelo receio de ser ferido por qualquer palavra mal dita, ou por qualquer abjeção ao Eu que habita o instante-já das tuas fisionomias em desgosto.
as expressões de todas as faces que me rodeiam são de julgamento, como se promulgassem a sentença máxima sobre o meu corpo secular. vós estareis recobertos pelos louros da inteligência, enquanto eu - o réu expiado e nunca circularizado pelas vossas devoções de amplitude - jamais chegará perto de vossos suntuosos pés. então o meu destino é arrastar-me pelos destroços que os outros de minha linhagem deixaram pelo caminho e tentar fazer ser notado pela vossa compaixão? se te rogo por amparo é porque estou tão perdido quanto sempre estive: nunca realmente fui capaz de chegar aos termos de equilíbrio comigo mesmo. sou a balança desregulada do acaso que me trouxe até aqui, e desregulado continuo por encontrar-me, novamente, sob os pés que involuntariamente sempre me esmagam contra o chão.
as expressões de todas as faces que me rodeiam são de julgamento, como se promulgassem a sentença máxima sobre o meu corpo secular. vós estareis recobertos pelos louros da inteligência, enquanto eu - o réu expiado e nunca circularizado pelas vossas devoções de amplitude - jamais chegará perto de vossos suntuosos pés. então o meu destino é arrastar-me pelos destroços que os outros de minha linhagem deixaram pelo caminho e tentar fazer ser notado pela vossa compaixão? se te rogo por amparo é porque estou tão perdido quanto sempre estive: nunca realmente fui capaz de chegar aos termos de equilíbrio comigo mesmo. sou a balança desregulada do acaso que me trouxe até aqui, e desregulado continuo por encontrar-me, novamente, sob os pés que involuntariamente sempre me esmagam contra o chão.
se nada fizer nada sofrerei,
e por isso a contradição se torna tão parte de mim agora. porque sofrer se estou seguro dentro desta cabana, abafado no núcleo do silêncio que nunca poderá me atingir se nunca souber onde estou. me escondo, então, como forma última de me omitir das verdades que sei existirem sob a epiderme dos pecados cometidos. outorgo-me a salvação reinante no espaço, preferindo os dejetos da carne do que as glórias necessárias para conquistar o sofrimento. revisto-me novamente com a máscara esculpida pelos rios que foram expulsos de mim nos tempos antes de Cristo e adentro o mundo revigorado pelas mentiras que segredei a mim mesmo. nestes tempos sombrios de completa e obscura sensação de irrelevância, as verdades não podem nem ao menos serem tocadas: o cristal que as constitui poderia estilhaçar o construto social que emprego para poder atravessar horizontalmente o orgânico insuperável da natureza.
como vencer a verdade sem tocá-la?
não desejo ser sentenciado à morte, mesmo que este fosse o meu último recurso de vida. gostaria que vós me descobrissem tão inseguro quanto as aves que se desdobram indefesas por sobre as queimadas que as expulsaram do ninho primeiro & original. gostaria que alguma mão me fosse estendida, salvando-me das labaredas que me consomem o corpo voador humano e frágil demais para enfrentar o fogo que sobrevoa os meus inúmeros futuros. o desamparo do sentir-se sozinho por vezes me comprime como matéria entrando em colapso sob a própria gravidade: queimando em combustão explosiva no vácuo das imensidões que existem entre cada ser-humano; suplicando pela aproximação silenciosa de outros corpos sobre o meu.
eu queimo demais e em intensidade insuperável, e por isso começo a aceitar as vigências que me são impostas.
"nunca haveis de te aproximares de qualquer corpo, posto que o destruirás com as tuas chamas irrepreensíveis."
retorno, então, à implosão que me constituiu enquanto conquistador santo das Novas Terras. revelo as ausências que se fazem pesadas em minha carne, rasgando, com profunda dificuldade, as sonolências que habitam cada átomo de meu corpo. regurgitando-me de mim mesmo posso - a contragosto - me consubstanciar com os átomos do próprio espaço-tempo e então reconstituir os fragmentos que me fizeram chegar até aqui.
depois do silêncio prolongado e festivo de ventos, reabro a porta da pequena cabana e me lanço sobre o selvagem caos que habita o outro lado da face terrestre.

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