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uma tal substância espessa e volumosa de um vazio translúcido percorria vagarosamente as finíssimas veias de meu organismo, espraiando-se para além dos limites que antes imaginava encerrarem o meu corpo do mundo exterior. como que vibrando em ritmos gêmeos, o meu coração se tornou de repente lento e luminoso, tomado por um súbito estado de exultação induzido por silenciosas aleluias. as paredes da pequena igreja em que me encontrava ressoavam pelos cânticos do coral sob o altar e reverberavam pelos vitrais coloridos e refratados do alto, tornando a própria luz solar que se infiltrava pelas janelas acima de alguma maneira, também, sonora. prostrado de joelhos perante a grande ruína antepassada & sagrada que adorava como novo Deus de minha fé, sentia a imensidão ruidosa da luz transpassar-me em jorros de sensações: as ondas solares feriam os meus poros e atravessavam-me religiosamente, como se por meio do sacrifício corpóreo fosse possível a salvação mesma do espírito. aceitei como dogma definitivo da religião que inventara desde o dilúvio que destruira minhas primeiras terras, permitindo-me purificar com os destroços de minha própria ruína que enxergava nitidamente no grande altar preparado para esta celebração do nascimento. os salmos que repito - portanto - é para que a Palavra se torne Experiência vital, elevando-me à compreensão que ainda não tenho de mim mesmo: só assim poderia experimentar o fragor da substância veloz que percorria os rios do meu corpo interior, inundando-me de uma vívida e latente ausência nunca antes experimentada ou sentida. era como se, sentindo-me inundar por ausências, houvesse me desprendido do corpo que já nem era mais meu e muito menos teu, mas que ainda sim teimava em habitar no desconforto de uma história consumada. olhando -me subitamente de longe pude compreender os detalhes do que Fui com muito mais destreza, deixando que as lembranças que se avolumavam no presente viessem como a correnteza de uma cachoeira a precipitar-se ruidosa por sobre o monstruoso abismo do meu passado em direção ao marasmo indissolúvel do tempo terrestre.
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te ouvir de longe - deslocado pelo tempo e renascido pela ausência da carne - parece-me agora os assombrosos ecos de uma vida que não mais a mim pertencia. é como se vislumbrasse a ti e à minha história como quem perscruta silenciosamente de longe, guardando distância segura da arena em que havia desferido tantos golpes e morrido tantas mortes por combate. se permaneço distante da tua figura sem forma que como um fantasma me rodeia, é porque não sinto mais que o espectro do passado me assuste mais. se padeci de minhas Sete Sacrossantas Vidas foi para guardar minha oitava persona que sei ser a ressurreição própria do corpo que nunca desistiu de caminhar: na tentativa de fugir dos teus toques gelados e das memórias de uma vida anterior a ti eu reencontrei-me comigo mesmo - mais desfigurado e mais melancólico do que antes - mas ainda sim um corpo que era ausente das marcas profundas do amor em fogo.
neste novo corpo próprio e soberano, os galhos de sangue que me ascendiam à vida eram ainda virgens da paixão incalculavelmente destruidora, reverberando apenas um espesso liquido perolado que era o vazio mesmo de qualquer constructo simbólico sobre o sentir no mundo. a experiência como que manifestando-se em humana sensação me permitiu experimentar a incompletude vazia de matéria que perpassava, de súbito, este meu corpo-único e sem fissuras. o futuro e o passado fundiam-se no instante-já que presenciava de olhos bem abertos, assistindo meu abdômen grávido de plenitude dar à luz ao novo espírito cristalino pela salvação ulterior. a carga de tudo o que já sentira dissolveu-se imaculado pelas paredes moleculares de minha tenra pele, esvaindo-se em espiral de cinzas enegrecidas a saltarem da fogueira em que as ruínas da nova religião que adorava foram fundadas.
neste novo corpo próprio e soberano, os galhos de sangue que me ascendiam à vida eram ainda virgens da paixão incalculavelmente destruidora, reverberando apenas um espesso liquido perolado que era o vazio mesmo de qualquer constructo simbólico sobre o sentir no mundo. a experiência como que manifestando-se em humana sensação me permitiu experimentar a incompletude vazia de matéria que perpassava, de súbito, este meu corpo-único e sem fissuras. o futuro e o passado fundiam-se no instante-já que presenciava de olhos bem abertos, assistindo meu abdômen grávido de plenitude dar à luz ao novo espírito cristalino pela salvação ulterior. a carga de tudo o que já sentira dissolveu-se imaculado pelas paredes moleculares de minha tenra pele, esvaindo-se em espiral de cinzas enegrecidas a saltarem da fogueira em que as ruínas da nova religião que adorava foram fundadas.
o futuro de repente me encarava hiperbólico, resoluto e vazio: eu precisava morrer e ressuscitar no terceiro dia, renunciando a mim e à minha carne humana para poder, em um esforço quase divino, adentrar o fluxo vazio dos futuros novos que me espreitavam para além da estrada principal que percorria incansável e sem cessar.
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estando tão leve quanto livre, pude atravessar as densidades que se amontoavam sobre os meus múltiplos passados com profundo cuidado, voando vertiginosamente por sobre a profusão de cores e ruídos que já me eram tão fracos quanto as lembranças dos teus olhos sobre os meus em intenso sabor de amor profundo. um dia fostes o meu universo inteiro, e a explosão incandescente da supernova que explodira no vácuo de nossas perpétuas solidões anteriores ainda guardava ligeiros traços de tua passagem em meu mundo. atravessei, portanto, com estreito vigor a poeira cósmica sem me ater ao que os ecos diziam, deixando que os murmúrios agora ininteligíveis de verdades mal ditas se desmanchassem no híbrido encontro de minha alma incorpórea com as águas imêmores de uma vida para além da que existe agora. as ruínas da revelação primeira subitamente transpassaram todas as células e nervos deste corpo vazio de Mim, perfurando as ranhuras da pele antiga que me protegera e atingindo o núcleo da epifania bruta que nascia no prematuro nascimento da alma nova. este novo Eu que brotava no seio do próprio instante-já era seguro e poderoso, linha tênue que meus olhos viam se estender para além do mais amedrontador futuro, assegurando-me de que não cairia perante os novos incêndios que se formariam adiante.
o sobrevoo d'alma chegou, enfim, ao grande oceano da nova Ordem em que deveria - religioso e santificado - mergulhar para que minha assunção fosse completa. respirei fundo, sentindo o ar infiltrar-se sem dificuldade nas veias novas que nasciam agora na comunhão do sacrifício. o límpido líquido vazio se tornou vermelho por fim, fazendo-me ser, à partir de então, o novo templo do espírito purificado pelos mandamentos de minha nova Religião.

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