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quando os ecos da tua voz tornaram-se murmúrios instáveis - frágeis de estrutura e esmagados pela suntuosidade do silêncio - eu sabia que havia perdido a solidez do que sentíamos um pelo outro. tentei gritar à plenos pulmões, cego pela escuridão que de repente quebrou-me os ossos já fracos da espera e sentindo no ar úmido da madrugada o fino adeus que nunca chegaria aos teus ouvidos. a noite, num piscar de olhos, tornou-se aterradora e urgente tal qual o último uivar de lobos selvagens mortos pelo seu violento predador. vibrando em tom menor de desespero, os uivos de morte ecoavam por todas as coisas inóspitas daquela selva, sem nunca encontrar qualquer resposta à urgência implícita nas reverberações moles do verão escaldante. a impotência dos momentos posteriores me alarmaram repentinamente: como poderia eu - dono de mim mesmo e incansável conquistador das novas terras - continuar abrindo os caminhos sem o eterno-retorno dos teus ecos?
me lembro de adentrar a mata fechada em um estranho estado de exultação, como se a tua impraticável presença me soprasse de vez em quando um jorro de alegria despretenciosa, dessas que nos afetam e desmascaram toda a sorte de máscaras impossíveis. carregando o facão pesado que estava atado às costas, penetrei a floresta densa de carvalhos volumosos e intensos arbustos rochosos, nunca procurando pelo que nunca esperava encontrar. o ar vivo e limpo da umidade florestal elevou o meu espírito ao Ser etéreo, e então flutuei acima das árvores mais altas, embrenhando-me no coração do que havia a frente sem olhar para trás, seguro da mão que poderia alcançar-me num abrir largo de braços.
nunca em mil anos poderia supor o que viria. confiei cegamente em teus braços, pois que a floresta tropical à frente era escura e ameaçadora, passagem que precisávamos rezar como a liturgia dos recomeços santos de nossas vidas. me lembro do exato instante em que as nossas mãos se encontraram e selaram no testamento da pele a proteção de nossas almas: nós nunca deixariamos de nos esconder em meio à multidão desconhecida & sedenta pela vingança marcada com o fogo do inferno do qual diziam-nos termos saído e no qual conclamavam que iríamos padecer ao fim de nossas vidas.
(eles nunca nos reconheceriam como sujeitos diretos da Obra divina tal qual eles se proclamam ser)
entranhando na selva antiga, senti agudo em minha tez clara os riscos de sangue seco protuberantes em minhas feições; o suor úmido & salgado que caia devagar pela minha nuca em direção às costas frias de horror; a ferida na coxa direita que abri quando não soubera manusear o facão nos matagais densos que se uniam pelo caminho e o cansaço da caminhada interrupta que iniciamos juntos, lá atrás, quando decidimos também juntos que o explorar dos caminhos poderia no levar mais longe do que sempre supusemos chegar.
e então - ao tentar encontrar o cantil de água pura que trouxera comigo - percebi a tua ausência. girei em meu próprio eixo - urgente em desespero - não acreditando no que acontecia neste presente que sempre agradecera por ser eterno. o medo me paralisou: minhas vistas ficaram embaçadas e a grande clareira começou a girar em círculos profusos, disformes e intensamente iluminados pele verde-musgo das copas acima. a umidade quente e abafada da floresta subitamente pesou em meus pulmões e, de um momento para o outro, não conseguia mais pronunciar qualquer palavra. caí por sobre o chão atapetado de folhas mortas e senti a ferida ainda aberta na coxa direita latejar novamente, viva em profunda dor. em uma última tentativa desesperada tentei gritar, mas nenhum som projetou-se para fora de minha garganta agora inesperadamente ressequida.
a minha mente só ouvia os ecos da tua voz mergulhada nos sons da grande floresta, como se repente tu tivesses se tornado parte da extensa & opressora densidade que me esmagava contra o chão. quando enfim aceitei o vácuo amplo e mitigado pelas águas tropicais que me deixastes, senti cessarem de ressoar as tuas cordas vocais no mundo.
eu nunca entenderei o silêncio. eu nunca compreenderei a ausência repentina e despreocupada, como se o meu coração fosse uma embalagem plástica que pudesse ser descartada quando finalmente tivesses o presente em tuas mãos. o peso de todos os teus não-ditos é o que mais me esmaga - e então eu tento escorregar por debaixo dos escombros que deixastes - tentando descobrir um jeito honesto e compassivo de lidar com tudo o ficou.
os feixes de luz que atravessavam a carregada copa das árvores ao alto passaram dos suaves tons de caramelo do entardecer para descerem em profundas e violentas sombras arroxeadas ao anoitecer, mergulhando os arredores da floresta em sombras cerradas & volúveis de espectros nunca pertencentes àquele ambiente.
eu nunca levantei - acho até que adormeci por algumas horas - esperando, talvez, que tivestes voltado pelo mesmo caminho pelo qual viemos; pensei que talvez as pegadas fundas no verde apodrecido dos terrenos marcassem o teu retorno, mas quanto mais a noite escurecia, mais os ossos em mim pesavam. e então me vi afundando lentamente no medo de nunca te encontrar novamente - enterrando-me na terra fria e rodeada pelos restos orgânicos que um dia passaram pelos mesmos caminhos - e esperando que mesmo depois das tuas conquistas os teus olhos caminhassem mais uma vez por mim.
fecho os olhos quase mortos e finjo serenidade.
amanhã levanto.
amanhã volto a caminhar.
amanhã sinto o novo.
mas hoje reservo a noite para te enterrar junto ao Eu que existiu em tua presença.

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