a âncora que se encontrava presa em torno de minha perna direita parecia pesar uma tonelada de puro chumbo, arrastando-me para a imensidão abaixo em um empuxo de força agressivamente desproporcional. meu corpo escorregava para as profundezas do oceano salgado e profundamente revolto pela tempestade que se erguia no horizonte enegrecido da madrugada. os relâmpagos em profusão riscavam o céu intensamente úmido da noite maldita, rasgando as nuvens escuras que se interpunham no caminho entre o continente firme do qual saíra e o meu destino que se encontrava a quilômetros de distância dali. mesmo em agonia e em meio à violência da tempestade marítima, pude ver os destroços do grande navio boiando na superfície acima, distantes alguns metros de meu frágil corpo humano a despencar vertiginoso pelas profundezas do mar. restos de utensílios e objetos que usara nos dias anteriores durante a viagem mergulhavam ao meu redor, fazendo-me companhia através da descida ártica para a qual era puxado. parecia estar em algum ponto dos pólos terrestres, pois que estas águas salgadas eram tão frias quanto o gelo: sentia meus membros retesarem-se pela frieza colossal que nos circundava, como que lançando os disparos de alarme ao meu organismo que começava a morrer lentamente.
a grande e volumosa amplidão do oceano ao redor engolia-me com facilidade, consolidando-se enquanto a presença líquida de minhas próprias emoções em revolta, intransponíveis elas pareciam ser diante dos mais duros esforços que empregava. apesar de sacudir meus braços com violência, tentando esmagar a água como que num acesso de fúria supliciante, não parecia conseguir resistir à gravidade do que me submergia em meio à forçosa intempérie cheia de silêncios e riscos prateados. tentava nadar inutilmente, sabendo que nunca conseguiria lutar contra a correnteza atroz deste temporal repentino que me acometera num susto de passagem desavisada. submerso completamente pelo desfiladeiro oceânico, me peguei olhando uma última vez para a superfície que se distanciava cada vez mais de mim, sonhando com o respirar da pureza viva e luminosa que antecedera este momento de agudo suplício.
quando passei de determinada profundidade, assisti com espanto alguns animais marinhos saírem de suas cavernas incrustadas nas fendas oceânicas, desfilando ao meu redor como que curiosos pelo corpo que caía dos relâmpagos lá de cima. talvez cheirassem o sangue que se alastrava fino pela água que atravessava célere, desenhando uma linha vermelha da superfície até onde estava afundando. olhando para eles e para a ampla paisagem que existia embaixo do mar, o pânico que sentia começou a ceder lugar para uma sensação muito mais sutil e duradoura, aprisionando-me na beleza das profundezas marítimas: eu me tornei aos poucos meio-animal-meio-humano, dividido entre o peso da âncora pungente e a brevidade do espetáculo que assistia no encontro do fim. as braçadas foram aos poucos dando lugar a um torpor leve e insustentável: indo em direção ao fundo do mar, a fatiga contra a qual tentara lutar com insistente desespero tomou-me os braços e as pernas num arrebatamento de dor, e então desisti de nadar. de repente fiquei leve como se estivesse em um estado de graça, a âncora se tornando como que uma pesada sensação de destino consumado. desisti porque entendi que não havia escolha, e deixar-se afundar no mar era o que de mais misericordioso me restava nos momentos anteriores àquela Queda maior e mais profunda. eu sabia que em breve não conseguiria mais segurar o ar dentro de meus pulmões e muito menos manter meu cérebro oxigenado, e então a urgência do que se seguiria àquele momento me acometeu como uma visão de sentença severa: custei a aceitar que morreria tão jovem e tão castigado pelos pecados que imolaram minha pele nos dias de perpétuo calor, antes que soubesse sobre a verdade que sempre evitara questionar. meu último ato antes da Queda foi olhar para o alto, vislumbrando os clarões brancos que como espasmos se projetavam por toda a liquidez opressora. as luzes pareciam festejar o perdão que finalmente dei a mim mesmo: senti como se estivesse sendo abençoado pela tempestade que decretara a minha sentença de morte.
...
lembro-me do adeus colorido de vermelho que lancei já no alto do navio, vendo-o se afastar aos poucos do vasto continente que deixava para trás. uma lágrima caia de meus olhos enquanto sacudia minhas mãos acima de minha cabeça, com olhos semicerrados e visão imprecisa. chorava porque sabia não ter sido suficiente: nem a ti e nem à história que tentei construir contigo. chorava por estar vazio, por não ser capaz de amar, por saber que nunca beijaria ninguém com a mesma urgência que beijara o homem anterior a ti e por saber que provavelmente teria esta âncora para sempre atada aos meus tornozelos. tu fostes a minha tentativa absoluta de deixar o passado para trás, mas os meus lábios tocaram os teus em estado permanente de luto e completamente vazios de sentimento. tuas unhas encravadas na pele machucaram-me em profunda libido, mas não pelo desejo que achava me consumir. era só uma dor esbranquiçada - falida e inerte - a arrastar-me para os encontros que não podia (e nem deveria) mais suportar com complacente acuidade. beijava os teus lábios ansiosos por puro medo: amedrontava-me a ideia de não viver mais pela paixão selvagem, que me levara a cometer os piores delírios de minha fraca lucidez. minha língua áspera se confundia com a tua como se pedisse socorro, implorando para que a solidão que carregava em meu ventre não implodisse as fantasias que havia criado, e que sustentava em compostura permanentemente solene. cavalguei com meu corcel os terrenos queimados pelos fogos do inferno que eram as memórias em mim, contigo ao meu lado, só para perceber que nunca conseguiria me refazer da última ruína em que meu coração fora destroçado. nenhum amor se fazia à partir do medo e, com aguda tristeza, aceitei não ser capaz de amar uma única alma sequer.
naquela última noite, antes da partida, o teu ressonar ao meu lado se tornou pesado demais. cada respiração tua me lembrava uma acentuada agonia dilacerante, e ainda deitado na madrugada orvalhada de calor eu sabia que nosso encontro já não podia mais sustentar-se em terreno fortificado. eu soube que precisava ir embora o mais rápido possível, pois que tu não merecia um amor pela metade; muito menos este corpo de ossos proeminentes e carne apodrecida que carregava. silenciei teu corpo no meu, envolvendo-te em um abraço cheio de ternura. beijei teu pescoço por uma última vez e sussurrei para o ar da noite fria um até breve rouco, implorando-lhe que me perdoasse. se os pecados que cometi por ti e para ti não fossem perdoados, aceitaria mais este peso morto de culpa e remorso, orando agora para Deus que me fizesse maior e mais soberano do que os meus medos mais ocultos. atravessei a noite já nascente, correndo agora sozinho em meu corcel pela cidade adormecida, deixando que o vento da cavalgada levasse as minhas lágrimas embora. duvido que Deus esteja ouvindo minhas preces, mas se estivesse prestando atenção nesta última madrugada terrena tenho certeza que me conduziria pelos caminhos da grande e poderosa descoberta ulterior.
a culpa que levo nas costas talvez seja este teu amor não correspondido, ou talvez sejam as inúmeras tentativas fracassadas de amar que tentei em vão impor ao meu espírito. só sei que a cada tentativa de amor naufragado, uma parte de minha esperança já fragilizada morre para nunca mais renascer. me tornei duro pelo tempo, enrijecido por uma armadura que não é minha, mas que vesti como se fosse e que então se tornou minha própria pele quase impenetrável. me afastei para não ferir ninguém: isolando-me em uma ilha longe de tudo e de todos talvez eu esteja mais seguro. talvez a culpa se dissolveria nas ondas do mar na aurora de cada dia e talvez meus olhos não chorassem mais como choram nos dias que transcorreram morosos pela nossa história insuportavelmente caótica e não uniforme. me lancei ao mar pois que nunca te conseguiria ser completo. fuji pois isso é o que faço, e se te deixei desconcertado diante da despedida foi porque deixei-me acometer pela fraqueza que tentara sempre esconder. subi no navio sem aviso prévio e o adeus só foi lançado quando já estava longe, evitando ver claramente a tua expressão de provável desgosto. permaneci envergonhado até alcançar a tempestade atroz e, ao erguer meus olhos para o céu escuro e pesado, compreendi que nunca alcançaria a ilha tão desejada por mim.
...
cansado e pesado demais, deixei que o oceano invadisse meu corpo. Senti meu sangue se misturar com o que vinha de fora, afogando meu corpo interior e submergindo-me para a brevidade da vida que repentinamente se tornava inescapavelmente delicada. de repente meus pulmões e o meu cérebro e todos os meus órgãos internos estavam cheios, volumosos, submersos pela imensidão mesma de mim mesmo tornado líquido. eu me afogava e deixava ser afogado, sentindo uma incompreensível epifania ao acessar o estado de latência que antecede o fim da matéria-quase-morta. ainda olhando atentamente para cima, vislumbrei meu espírito transcender minha carne humana e flutuar diante de meus olhos quase cegos, em direção à liberdade do céu que se encontrava lá para além deste oceano intransponível.
meu corpo se tornou água e eu me tornei líquido.
nada mais sentia e nada mais me assustava: compreendi que aceitar o destino era a única forma de experimentar a quietude dolorosa da alma que alcança a Luz: meu espírito dançou acima e sussurrou uma canção de ninar, como se soubesse que tudo o que buscava neste momento da mais profunda e opressora solidão era o carinho sempre negado por todos os que sempre me cercaram. vislumbrei uma última vez os espasmos de luz acima, sentindo o volume das águas se tornarem parte de mim. fechei os olhos e, envolvido pela presença de meu próprio espírito, silenciei finalmente nos braços do único amor possível e nunca violento.

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